Aprendendo a viver

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Saavedra Fontes

 

Deixa que as lembranças cheguem devagar e de assalto o tomem pelo caminho. A vida só vale a pena se a vivermos no calor das emoções. Sem essa de ignorar o que você é ou foi, ou o que poderia ter sido. Se for preciso chore agora ou ri, pra que adiar o que lhe foi reservado por carma ou herança Divina. Se alguém lhe criticar aceite e analise, só não concorde de imediato com as palavras que usarem contra você. Quem se julga juiz pode não saber fazer justiça. Se há alguma coisa em você que precisa ser corrigido, corrija você mesmo se for capaz, não permita que outros o façam através de manipulações. A gente é o que é não adianta alterar nosso esquema de vida, pois é a soma de nossas angústias que nos ensina a viver. A borboleta, um dos mais belos seres de nosso planeta, vive muito pouco. Nem por isso deixa de fazê-lo completamente, oferecendo sua colaboração no extraordinário espetáculo da Natureza. A velhice não é má, ruim é achar-se incapaz. Se as pernas não suportam mais seu próprio peso e a libido continua refúgio de seus desejos íntimos, reforce-os com a saudade. Não há nada mais gratificante do que recordar  os bons momentos de nossa existência.

Hoje eu descobri entre velhos papeis, guardada, uma carta de meu pai. E um enxerto delicioso de minha mãe, que tinha por hábito sempre acrescentar às preocupações do velho recomendações morais. Que gostoso rever a letra de cada um e o estilo, totalmente poético dela e direto e severo dele.  Foi como se tivessem vivos ainda. Tão forte foi a impressão, que me passou pela cabeça a ideia de responder-lhes de imediato. Como se fosse possível! Uma simples e antiga carta, mas quanta emoção me proporcionou. Quanta saudade! E não há nada melhor do que a saudade, apesar de muitos a condenarem injustificadamente.  Ruim é a solidão, esse estado de abandono a que podemos chegar, distanciando-nos dos outros e de nós mesmos.

Bom mesmo é viver de bem com a vida, sorrindo sempre, esquecendo o que ela tem de cruel e violento, Aprendi muito cedo a ser um observador e crítico contumaz. Não conseguia rir na rua de um tropeção ou queda de algum distraído, deixava para rir em casa, às escondidas, pois não queria magoar ninguém. Era uma forma de diminuir o peso na consciência. Depois disso, como se fosse um castigo, já caí diversas vezes e não encontrei ninguém  que se conteve. Todos riram, muito, sem dó nem piedade.

Há muitos anos atrás, nos meus tempos de estudante doidivanas, antecipei a mania dos jovens de hoje de pichar muros e paredes. Ao saber que um sujeito arrogante, rico e avarento maltratava a mulher e as filhas, quando elas atendiam  a um pedido de esmolas de algum pedinte, escrevi com cacos de tijolos na parede de sua residência:  “nesta casa todo mundo dá, menos o pai”. Fui aplaudido e condenado, mas aprendi a ver que em cada cabeça há uma sentença. O bom de tudo isso  foi o prazer que tirei da brincadeira. Não se assustem nem me levem a mal, eu só possuía quinze anos de idade na época. Foi muito gostoso ver a reação do sovina. São travessuras do meu acervo particular, quem não as tem. O mais curioso foi verificar que a malícia partiu dos outros, porque ingenuamente eu havia me referido às esmolas.

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