Época de luzes

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Whisner Fraga é escritor.

Já é início de dezembro quando Helena aponta para o pequeno jardim sem luzes, sem as duas renas, que todo ano movimentam as cabeças para lá e para cá.

Rastreio num segundo a vastidão da memória e percebo, nessa análise rápida, que não fui eu a lhe ensinar o amor por cintilâncias.

Podemos perguntar ao Seu João sobre o atraso, tento conciliar.

E nesta curta viagem, emerge em mim a saudade daquelas lâmpadas multicores de Ituiutaba.

Mal esperava os anoiteceres de dezembro para ir ao centro, às avenidas vinte, vinte e dois, onze, treze, quinze, para testemunhar a inundação de tons, de claridades.

As pessoas transitavam animadas em um horário que normalmente estariam em casa.

As calçadas cheias me interessavam mais que as lojas cheias. Eu sequer era um cliente, eu demoraria ainda muitos anos para me tornar um cliente.

Os rostos, os braços, as pernas das pessoas se tingiam de azul, de vermelho, de verde. As luzes democráticas não escolhiam seu destino. Era bonito.

Eu rodava os quarteirões sem me cansar.

É tão bom poder caminhar entre gentes, encostar os ombros em outros ombros, tão repentino podermos nos desviar de uma iminente trombada.

Eu não queria saber do Natal. Nunca quis saber do Natal, essa festa reacionária.

Nunca quis saber dos papais-noéis, que separavam os melhores presentes para os ricos. Nunca quis saber dos papais-noéis, que vestiam aquele veludo vermelho comprido nas noites tão quentes de minha terra natal. Aqueles velhos de barbas falsas nunca representaram a minha fome de luzes. Eram seres apagados, sempre foram.

Então digo a Helena que se aquiete. Que o dia em que as renas brilhantes pastem no pequeno jardim de nosso prédio está próximo. E que esperar é bom. Que ter paciência é bom. Que a luz não se cria em um único dia. Que quando ela estiverlá, nós dois desceremos para uma foto. E que será uma noite clara e feliz.

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