A graça da graça

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Existe uma música, um pouco antiga, de um conterrâneo nosso que tem um verso assim: “vi que a graça nunca vem de graça e os pecados eu paguei primeiro”. Ao ouvir esse poema talvez pela enésima vez, percebi a realidade que o autor quer mostrar. Se minha reflexão estiver correta, imagino que a graça é um dom, é verdade, e como tal não tem como buscá-la, comprá-la ou inventá-la, mas nunca vem de graça. É preciso merecê-la. É preciso estar aberto para recebe-la, é preciso um coração desarmado, sem armaduras, sem trincheiras, sem barreiras e taramelas. Há pessoas que vivem assim, ensimesmadas. Fazem segredos de tudo, se fecham em copas e seu coração fica insosso e principalmente sem a graça. Torna-se um terreno árduo onde a semente da graça não brota. É preciso o adubo da espontaneidade, a água da alegria e o sol do riso para alimentar essa plantinha. É preciso graça para receber a graça. Daí, devagar, ela vai brotando, crescendo e acaba se tornando um arbusto forte, dando frutos que alimentam o espírito.

Assim, dependendo de nossa disponibilidade, da propriedade do terreno, a graça pode ser de várias espécies. Pode vir sob a forma de felicidade, de desapego, de solidariedade, de amizade verdadeira, de fé ou de amor. O fruto mais doce dessa árvore é o amor. Há pessoas que nunca receberam essa graça – não conseguem amar. Não se amam e não amam ninguém. Talvez se apaixonam e até matam dizendo ser por amor.  Ledo engano! Quando se ama de verdade, só se quer o bem do ser amado. O coração fica repleto dessa graça e, portanto, não há espaço para ervas daninhas como o ódio, o ciúme, e o desrespeito. Quanta paixão tem torturado tantas mulheres nesse país!

Importante ter em mente que toda planta requer cuidados, e quanto mais nobre, maior deve ser a preocupação em lidar com ela. Há pessoas que não conseguem cultivar orquídeas, nem tulipas ou nem mesmo bem-me-quer. O amor é a mais nobre das graças recebidas. É preciso cultivá-lo para que possa crescer infinitamente, pois Deus é amor e Deus é infinito. Outro aspecto de igual importância é o reconhecimento dos dons recebidos, bem como da responsabilidade que os acompanha. Um músico de renome deve saber que seu dom precisa prestar serviços, precisa ser motivo de alegria, de felicidade para seus semelhantes. Um orador que recebeu o dom da palavra, não pode enterrar esse talento, mas ser um arauto do bem. Usar essa graça para difundir a verdade, a ética e a justiça. Assim deve ser o escritor, o sacerdote, o médico, o engenheiro. O melhor de tudo é que esse reconhecimento não exige necessariamente inteligência, mas sim sabedoria. A sabedoria permite ao ser humano identificar seus erros, corrigi-los e principalmente evitar sua reincidência. É através da sabedoria que podemos ordenar hierarquicamente os valores humanos, e assim poder apreciar sua utilidade em nossa vida, pois é com ela que perscrutamos a essência dos fatos, sabendo até que ponto podemos permitir que nos atinjam. E com certeza, vamos identificar aquela facilidade que temos, como uma graça recebida e então explorá-la para o bem de todos. E para quem quiser corroborar sua graça com a fé, encontra em Efésios 2:8-9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. ”

José Moreira Filho

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