A sombra de nossa consciência

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Saavedra Fontes

O tempo passa como bólide arremessada a esmo pelas mãos de Deus e a vida corre, desenfreada à sua frente. Faz tempo que eu vivo essa rotina! Mas por que a queixa se esta é a nossa sina nos deixarmos levar constantemente pela sorte. É próprio de o homem reclamar, dada a infelicidade de viver entre mistérios e só entender o mundo pela fé. Crer por crer, sem se afiançar de que vivemos em dimensão diferente, que outros seres existem cuja evolução nos superou em muito a inteligência e a compreensão. E chegam até nós através da intuição e do livre acesso de nosso espírito ao universo onírico de nossa mente ou de uma atávica concepção do mundo espiritual.

Acumulamos valores íntimos no decorrer de nossa existência e condenamos a falta deles nos outros, porque não somos iguais. Cada um traz o seu índice de evolução ao nascer, uns mais e outros menos, mas sempre no sentido de progredir apesar de ainda possuirmos em nós o selvagem e raros exemplos de integridade moral. E temos que nos interagir sem preconceitos, sabendo que ninguém é perfeito. Por isso a advertência: “não julgueis para não ser julgado”. E somos todos nós tão propensos a isso.

O sol que nos ilumina em dias de glória e felicidade, projeta a mesma sombra em todo Ser Humano e nos segue em silêncio, como consciência muda de nossos passos. “Vai por aqui” – tenta nos dizer, mas só caminhamos orientados pela curiosidade de viver os prazeres mundanos. O homem sem a sua sombra é um zumbi rejeitado em sua tribo, um solitário e desorientado andarilho sem bússola e sem rumo. A consciência é a sombra que nos persegue… Não conseguimos viver sem o brilho do sol e precisamos da opacidade sem luz para nos recolhermos em pensamentos e refletir sobre a vida.

Amanhã, inevitavelmente, seremos sepultados sem a nossa sombra, pois não haverá luz que penetre em nossa cova escura e funda. No mundo do silêncio não seremos inquiridos nem condenados, pois ali só ficará o que restou de nós, a carne decomposta. O resto é entre nós e Deus, que nos cobrará por não termos ouvido a nossa consciência e termos deixado que a luz do sol estimulasse nossas presunções mais tolas, como a vaidade. A sombra que nos acompanha é sombra porque é discreta, mas é sensorial e nos acompanha atenta e perspicaz corrigindo os nossos impulsos primitivos. Por isso a solidão sem uma sombra que a acompanhe é o pior dos castigos.

Para nos enxergarmos por inteiro é preciso que a gente veja e ouça a nossa consciência diante da luz do sol. Quanto maior o brilho maior é a necessidade de compreensão e humildade, que a sombra de um espírito evoluído produz e oferece. Em noites de escuridão ou sem a luz do sol, sem a sombra de nossa consciência para nos seguir, a opção Divina é o aguilhão frio e penetrante do destino, que nos conduz como gado, traçando os caminhos.

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