De quem era a tralha

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A piracema estava acabando, mas naquela época não sabíamos. Assim, cumprimos o combinado e fomos para a beira do rio. Era um ponto mais ou menos tradicional e de fácil acesso. Ficava um pouco abaixo da ponte do rio Tijuco, de modo que eu gostava de estar ali, ouvindo o rugido dos pneus mastigando o asfalto e sentindo a estrutura se contorcer diante de tanto caminhão. Havia uns cinco ou seis vizinhos que tentavam rechear o samburá com alguns pequenos bagres. Então, era normal que nos animássemos.

Eu estava com uma tralha razoavelmente nova, que minha irmã cobiçava desaforadamente. Prometi a ela que pensaria em presenteá-la com os apetrechos, caso tudo corresse bem. Isso porque, evidentemente, não tenho muitas oportunidades de pescaria aqui em São Paulo. E, em Minas, bem, a coisa é muito mais comum. Assim, sacamos as minhocas, as espetamos nos anzóis e mandamos tudo para dentro da água. O resto era paciência e perseverança.

Estávamos todos em silêncio, pois é sabido que o segredo daquele negócio era a quietude. Peixes são inimigos de algazarras. Olhávamos uns para os outros, vigiávamos os caniços alheios e nem um beliscão. Nada. As muriçocas saboreavam diversos sangues. Um de nós, talvez meu irmão, sacou um pedaço de bosta seca, de vaca ou de boi, não se sabe, foi até um canto mais alto do barranco e ateou fogo. Aquilo devia ser suficiente para espantar os insetos.

Eu, muito branco, me prevenira: calça comprida e camisa de manga longa. Não restava muito para atacarem. De repente alguém grita. Todos se viram: minha irmã, com sua carretilha de lata de cerveja fisga alguma coisa. Vem trazendo o bicho, afoita. Todos assistíamos, esperando que viesse à tona algo que desse para um bom molho. Mas não foi bem assim. O que vimos foi um filhote de chorão, mirrado e sem-vergonha, que logo foi devolvido para o rio. Voltamos todos para nossas pescarias, cabisbaixos.

Depois ouve-se um burburinho ali embaixo. “Os homens estão aí, vão descer”. De fato, três soldados da polícia florestal se achegam em pouco tempo. O mínimo que fariam era confiscar todas as varas. Era o hábito. Recolhi a linha rapidamente, virei-me para minha irmã e, entregando-lhe o equipamento de pesca, desafiei: “Se eles não levarem, é seu”. Ela ironizou minha atitude, mas topou.

O argumento que ela usou com os homens da lei foi forte e bastou. Que o anzol nem a chumbada estavam na água e que, portanto, não se poderia afiançar que pescasse. Que não havia peixe nenhum no samburá, que não fazíamos ideia que ainda era piracema e que iríamos embora dali a pouco, pois não queríamos prejudicar a natureza. Os guardas fizeram o sermão, nos orientaram sobre uns cadastros e deram meia-volta. Dali a pouco retornariam para ver se fomos embora. Mas nem nos importamos. Desconfiávamos que existiam muitas ribanceiras para fiscalizar e não regressariam tão cedo.

Ariadne comemorava. Agora sim, com aquele caniço, com aquela carretilha, pegaria um jaú, no mínimo.

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