“Os Aforismos do Ciberpajé Edgar Franco” (142)

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Na coluna de hoje respondo a duas questões de um leitor:
[Questão] “Olá Ciberpajé, tudo bem? Pode dizer alguma coisa prática
sobre o caminho solitário que você escolheu?” (G.O.)

CIBERPAJÉ: Sobre a opção por um caminho solitário, ela tem um preço
alto para o que as pessoas consideram “vida em sociedade”, pois tal
vida não passa de um conjunto de regras e dogmas definidos pelos
grupos das mais diversas ordens. Para manter-se em um grupo de
“amigos”, você terá que submeter-se à cartilha de regras deles. Para
estar em uma seita, igreja ou religião, terá que dobrar-se aos seus
dogmas. Para estar em uma instituição de qualquer ordem terá que
seguir seus preceitos e regras. Nós não devemos negar a vida entre os
de nossa espécie, a existência se constrói na relação com os outros.
Seguir um caminho solitário não implica em misantropia, em isolar-se
do mundo e tornar-se um asceta. A existência só tem sentido se
compartilhada! Então existe esse erro de interpretação que confunde
solidão de ser – uma postura interior para a busca da integralização –
com isolamento. Eu jamais me isolo, mas não adoto nenhum dogma ou
regra que vá contra os meus princípios para integrar-me a algum grupo.
Não faço concessões a dogmas de nenhuma ordem. Não assumo nenhum
rótulo, nem os que querem me impingir como: metaleiro, ateu, vegano,
doutor, entre outros; pois mesmo nesses grupos sou considerado um
corpo estranho. Não preciso da legitimação de ninguém ou de nenhuma
instituição para saber quem eu sou. Mesmo na academia, um dos locais
em que atuo, sou crítico ferrenho dos dogmas instituídos, da
subserviência à teoria em detrimento da experiência, e adoto o mínimo
de regras para não ser expulso. Declarei-me Ciberpajé e digo que esse
título suplanta todos os outros e é o que me interessa, o que eu me
outorguei. Essa postura solitária, de buscar trilhar meu próprio
caminho, consequentemente resulta em ter poucos amigos, mas genuínos.
E na verdade , quem diz ter mais que 7 amigos, está mentindo para si
mesmo e para os outros. O caminho solitário é doloroso a princípio,
pois sentimos uma necessidade imbecil – implantada pela cultura humana
-, de sermos aceitos e amados a qualquer custo, e para isso acabamos
sacrificando a nossa unicidade como seres. Por isso é muito mais fácil
adequar-se, adotar um comportamento de bando, seguir regras,
submeter-se. É uma ação uterina, estar em um grupo é sentir-se
protegido, estar só é ter que admitir que você é o responsável por sua
realidade, por suas ações e as consequências que delas advêm. Seguir o
caminho solitário é não acreditar em nada, e ao não acreditar em nada
estar livre para experimentar tudo. Mas o caminhante solitário não
deve ter soberba, nem orgulhar-se disso, deve respeitar a opção de
todos os outros seres humanos, e amá-los incondicionalmente. Todos os
grandes seres e avatares de nossa espécie criaram seus próprios
caminhos, não imitaram ninguém, não se submeteram a nenhum grupo ou
dogma. Veja Cristo, Buda, Maomé, Rajneesh, Confúcio, Chuang Tzu e
tantos outros geradores de seus caminhos. Após suas trajetórias
luminosas, idiotas aproveitadores vieram e transformaram tudo que eles
disseram em doutrinas. Criaram dogmas estanques que obrigam as pessoas
a destruírem sua individualidade e quererem ser o que não são. Crie o
seu caminho, ele será tão único como o seu ser, e só criando-o poderá
chegar ao êxtase absoluto e transcendê-lo! (Ciberpajé)

[Questão] “Ciberpajé, você é um tipo de mago ou magista. Como segue
uma linha espiritual sem renegar a carne? Expressa que as paixões são
nocivas pela seu caráter alienante e aprisionador mas não renega seus
desejos, como achou o equilíbrio? Mesmo cultivando o amor sublime
permanece selvagem. Falo isso porque há doutrinas misticas que pregam
a abstinência e mesmo algumas carregando o nome oriental de yôga, por
exemplo, parecem beber do cristianismo mistico ao pregar a negação aos
prazeres. Como você conciliou isso?” (G.O.)

CIBERPAJÉ: Toda “paixão”, no sentido de estar PASSIVO diante de um
DESEJO é um veneno obscuro e horripilante. O estado “apaixonado”
implica passividade diante de um ou mais desejos. A consequência a
médio prazo é torná-los apegos e logo depois vícios. Um viciado, ou
seja, o hiperapegado, está à mercê do vício, e pode ser facilmente
controlado e manipulado, não é mais dono de sua VONTADE! Nós não
devemos abdicar de nossos desejos, mas não podemos deixar que eles se
tornem paixões deixando-nos passivos diante deles. Temos que exercer o
poder de nossa VONTADE, e se percebermos que um desejo pode nos
arruinar, ou nos tirar do foco – a busca pela integralidade de ser –
devemos abdicarmo-nos dele imediatamente. Mas perceba, a ação de
usufruir ou não de nossos desejos não tem nenhuma relação com a
moralidade instituída. Você só precisa desenvolver a capacidade de
dominar todo e qualquer desejo através da sua vontade, podendo abdicar
dele quando quiser. No entanto, ao mergulhar em um desejo de qualquer
ordem, com essa consciência, você deve ser intenso, usufruí-lo ao
máximo! (Ciberpajé)
*
Edgar Franco é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em artes pela
UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e
professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG.
Acadêmico da ALAMI, possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de
arte e tecnologia e histórias em quadrinhos. [email protected]

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